
Segundo longa-metragem da diretora argentina Gabriela David, La mosca en la ceniza, exibido na noite de terça-feira, na Mostra de Longas Mercosul do FAM 2010, é um filme que não faz concessões. Tratando de um tema duro - duas garotas do interior são atraídas a Buenos Aires com a promessa de emprego e acabam encarceradas e forçadas a se prostituir em um bordel -, consegue sensibilizar a plateia e conquistar os aplausos por sua narrativa eficiente e um belo trabalho de atores, em particular a atuação da pequena e jovem María Laura Cáccamo, que esteve presente à sessão e falou sobre o filme antes da projeção.
Maria Laura Cáccamo e Paloma Contreras são Nancy e Pato (apelido para Patrícia), duas jovens de pouca instrução iludidas por uma mulher de sua cidadezinha no Norte da Argentina. Mais uma boca para alimentar em uma família cheia de filhos, as duas pensam que irão trabalhar como faxineiras em uma "casa de bem", mas são levadas de ônibus pelo cafajeste e cafetão Oscar (Luciano Cáceres) até Buenos Aires. Pato sonha em poder voltar a estudar, em completar o secundário e encontrar o namorado que partiu para a metrópole e nunca mais deu notícias. Para Nancy, só o fato de estar na capital portenha com a amiga já vale a aventura.
Mas, ao chegar na tal "casa de bem", descobrem que foram enganadas pela dona do prostíbulo, Susana (a famosa atriz e cantora de tangos Cecília Rossetto, irreconhecível sem maquiagem e masculinizada). Pato tenta fugir, mas é espancada, estuprada e mantida sob cativeiro "até se comportar". Nancy tenta se adaptar e, para isso, conta com a ajuda das outras meninas do bordel, a Ruiva (Vera Carnevale), Vanesa (a filha mais velha de Diego, Dalma Maradona) e a jovem paraguaia Denis (a adolescente Ailín Salas).
Em uma entrevista ao jornal Página 12, Gabriela David disse que a sua intenção nunca foi contar a história em um registro documental, cru ou muito realista. "Não era a questão expor o que as pessoas rejeitam. Por isso aproveitamos os recursos narrativos para construir um ambiente opressivo e dar, através de climas e sons, a sensação de sexo constante, sem mostrá-lo", explicou a diretora.
Do cativeiro, Pato joga uma maçã por uma janela e grita por socorro mas, na rua do bairro de classe média alta, no lado de fora, a madame passeia com seu cachorro, as estudantes voltam da escola, o florista arruma os seus buquês, o policial finge que não vê nada, e o garçom desdentado do restaurante em frente (Luis Machin, em ótima atuação) vira cliente, promete buscar Nancy e, quando ela relata que ela e amiga estão presas e pede que ele chame a polícia, ele prefere se omitir.
A maior denúncia do filme de Gabriela David é justamente essa, a indiferença das pessoas que se espantam quando a realidade, tão próxima do seu conforto burguês, as surpreende e as choca. Quando a situação de Pato se complica após uma tentativa de fuga, e os capangas chamados por Oscar vão dar um fim nela, Nancy, que com a sua postura de aceitar a situação obtém um pouco mais de liberdade, encontra uma passagem pela cozinha, alcança o telhado da casa, consegue pedir ajuda e elas são resgatadas e os aliciadores presos. Nancy volta para o interior, grávida, e se casa com um índio. Pato fica na capital para trabalhar e estudar, como era seu plano.
A mosca na cinza de que fala o título, mais do que a brincadeira de afogar o inseto em um copo d`água e fazê-lo reviver com um punhado de cinzas (algo que Nancy tentou fazer o filme inteiro e só consegue perto do final), é uma evidente metáfora da situação vivida pelas duas amigas, de que é possível renascer mesmo quando, aparentemente, não há mais saídas. E é essa esperança que move o filme.