ENTREVISTA
Simplicidade da animação em massinha cativa as crianças
Marcelo Marão no FAM / foto Michele Diniz
Cercado de crianças com idade inferior a cinco anos, o diretor de animação Marcelo Marão vibrava após a sessão de Eu queria ser um monstro, nesta quarta-feira, na Mostra Infanto-juvenil do FAM 2010.
Com os olhos brilhando, o carioca de Nilópolis escutava atento as impressões infantis sobre seu primeiro curta em stop motion, técnica tradicional em que os bonecos de massinha ou no caso, de látex, são movimentados e fotografados quadro a quadro.
“Gostei do filme de massinha porque o menino toma banho e não molha a toalha e a mãe viu”, disse a aluna do Núcleo de Desenvolvimento Infantil da UFSC, Glória Zundt, de três anos, despertando gargalhadas no diretor. “Eu estava apavorado. A sessão é longa, difícil. Quando as crianças não estão interessadas, ignoram, vão ao banheiro, ficam se mexendo na poltrona. Passou um filme antes do meu que elas não gostaram e começaram a batucar. Eu pensei: ih, danou-se!”, disse Marão, cujo filme foi o último a ser exibido na sessão. “A coletividade da emoção infantil é de dar medo. Durante um outro filme que passou, uma criança começou a vaiar, ridicularizar. As outras 400 se congregaram e começaram a vaiar junto.”
Ao contrário dos temores do diretor, as 450 crianças que assistiram à mostra ficaram hipnotizadas com a história do menino que tem bronquite e queria ser um monstro. Nem os olhos piscavam. “Cadê o monstro?”, perguntou uma menininha de três anos durante a sessão.
Quando era pequeno, Marão também queria ser um monstro. “Porque você é grande e forte se você é um monstro. Ainda mais se você tem bronquite”, disse o diretor, que também teve bronquite na infância e curou com a natação, como o menino da história.
O curta é autobiográfico também em relação ao pai, Jorge Marão Filho, para quem o filme foi dedicado.
Foi com o dinheiro do armarinho do pai em Nilópolis e o salário de professora da mãe que o diretor de nove animações e mais de 200 trabalhos em comerciais e TV, como a minissérie global Hoje é dia de Maria, pagou a faculdade de Belas Artes na federal do Rio. Embora carioca, Marão fala com sotaque caipira, herança dos pais, naturais de Tanabi, interior de São Paulo.
Lápis no papel é a escola do diretor
As influências da infância como os quadrinhos Tintin e Asterix estão em Eu queria ser um monstro, que tem oito minutos e foi realizado em seis meses, tempo integral. Os cenários tem 50cm por 30cm. Para cada movimento que o diretor faz em um boneco, é tirada uma fotografia. Depois tudo é montado no computador com velocidade de 15 fotos por segundo. São um pouco mais de 10 mil fotografias no total.
Quando o menino mergulha na piscina, a técnica passa a ser lápis no papel, a primeira técnica de animação do país e a preferida por Marão, que passa oito horas por dia desenhando, não trabalha com computação gráfica nem joga videogame. “Sou velho, retrógrado e arcaico. E faço distribuição de renda: pago as pessoas para finalizar no computador.”
Apesar de não trabalhar com animação industrial, Marão vive de cinema. É professor na pós de animação na PUC do Rio, mora em Copacabana e tem estúdio próprio.
Bom humor até na hora de malhar
Aos 39 anos, solteiro – “Tenho que resolver isso esse ano” – Marão faz remo na orla de Botafogo, embaixo do Pão de Açúcar. “É bom, você pode fazer sentado, mas sai de lá doendo o braço, a perna e o abdômen.”
Em Florianópolis pela primeira vez, o diretor conhece o aeroporto, o hotel e a universidade. “Queria visitar o estúdio de Minhocas, que é o primeiro longa em animação stop motion da América Latina, mas até agora não deu. Estou assistindo a tudo no festival.”
Para ele, o FAM 2010 tem dois diferenciais. Aceitar filmes mais longos e a grande quantidade presente de mulheres na direção e roteirização dos filmes exibidos. “Fiquei chocado! Elas são multifacetadas!”
Para o diretor, este é um dos poucos festivais que tem público e não só pessoal do festival. “Até no Dia dos Namorados estava lotado”, disse, surpreso, antes de imitar um suposto namorado espectador. “Querida, vamos assistir curtas brasileiros para comemorar?”