
Um dos ícones da produção cinematográfica brasileira, o argentino naturalizado brasileiro Gustavo Dahl é uma dessas pessoas que, mesmo que tentem, não passam despercebidas por onde andam. Deixou sua marca no 14º Florianópolis Audiovisual Mercosul ao participar do painel "O nó da distribuição e a expansão das salas de exibição". E justificou a qualificação de "visionário do cinema nacional".
Com longa trajetória na história da cinematografia, Gustavo Dahl iniciou sua caminhada como colaborador em um suplemento literário do jornal o Estado de São Paulo, em 1958. Neste período se envolveu com o cineclubismo e com a Cinemateca Brasileira. Nos anos de 1960 especializou-se na área com cursos em Roma e em Paris, retornando ao Brasil em 1964.
Passou a acumular prêmios e reconhecimento por sua extensa filmografia como montador de filmes e documentarista. Também reconhecido por sua visão crítica da realidade, dirigiu seu primeiro longa, "O Bravo Guerreiro", um dos filmes políticos que marcou a segunda fase do cinema novo, em 1968. Paralelamente, prosseguiu com a função de crítico e ensaísta até meados da década de 1970.
Sua carreira de gestor público de cinema comçou também nos anos 70, quando assumiu a Superintendência de comercialização da Embrafilme. E ali deixou sua marca quando, envolvendo uma equipe de profissionais, tansformou a Enfrafilme – trabalhando exclusivamente com filmes brasileiros - na segunda maior distribuídora de filmes do país.
Depois, nos anos 80, presidiu a Associação Brasileira de Cineastas, o Conselho Nacional de Cinema (Concine) e o Conselho Nacional de Direitos Autorais. Após presidir o Congresso Brasileiro de Cinema, no início dos anos 2000, foi o primeiro presidente da Agência Nacional de Cinema (ANCINE).
Gustavo Dahl atualmente é gerente do Centro Técnico do Audiovisual do Ministério da Cultura. Em sua passagem por Florianópolis, mesmo após quase três horas de debates, dispensou a atenção que lhe é peculiar ao conceder entrevista exclusiva ao ImprensaFAM. Acompanhe a seguir.
ImprensaFAM – Com tão longa trajetória na produção cinematográfica e na gestão pública do cinema brasileiro, o que o motiva a trabalhar no CTAV hoje?
Gustavo Dahl – Trabalhar dentro dos limites da administração pública é um desafio que sempre me motivou. O CTAV tem sua ação centrada no apoio à produção independente através da modernização de equipamentos de som e imagem. Estamos importando equipamentos digitais e disponibilizando as novas técnologias em favor da cinematografia brasileira. Estamos qualificando o apoio à produção independente com equipamentos de segunda geração.
IFAM – Mas o CTAV também trabalha com a preservação do acervo cinematográfico nacional, certo?
GD – Sim, a preservação do acervo cinematográfico brasileiro é uma trajédia nacional. Mas nos dois últimos anos este trabalho está sendo revitalizado. Estamos resgatando e preservando obras do cinema nacional desde o início do século 20. Está sendo construído um prédio de 800 m2 para abrigar todo este acervo, com uso de técnicas de preservação, temperaturas adequadas para manter as cópias dos filmes em boas condições... um trabalho bem legal.
IFAM – E como está a receptividade deste trabalho?
GD – A receptividade é crescente à meeida que este trabalho está se desenvolvendo. Estamos trabalhando no recrutamento de novos talentos entre os produtores e também privilegiando a formação na área técnica.
IFAM – Nos debates do Fórum Audivisual do Mercosul muito se falou em alternativas para desatar o nó da distribuição da produção cinematográfica independente. Para você qual o melhor caminho para superar este problema?
GD – Não se resolve o problema da distribuição olhando para o passado, mas sim para o futuro. A internet é o novo espaço de distribuição e exibição da produção independente.
IFAM – E as salas de exibição tradicionais? Muita gente reivindica o aumento das salas de exibição no país...
GD – São espaços importantes. E a nível dos órgãos federais gestores da política para o setor já estão sendo criadas novas alternativas e demandas, como os Pontos de Cultura e espaços alternativos de exibição em salões paroquiais, associações de bairro e outros com o programa Mais Cultura. Mas a tendência das salas de exibição tradicionais, destas que estão nos shoppings das capitais, é cada vez mais só exibirem filmes que possam atrair grande público, ainda mais com os filmes em 3D, a coqueluxe do momento...
IFAM – E as produções independentes, e o chamado cinema de arte?
GD – No futuro até as salas dedicadas à exibição do cinema de arte só estarão disponíveis para os grandes filmes, os blocbusters, superproduções milionárias, geralmente internacionais, principalmente norteamericanas, que rendem milhões de dólares para os estúdios. As salas de exibição tradicionais estão superadas para as produção independente e para o cinema nacional.
IFAM – Então a janela privilegiada de exibição das produções independentes será a internet?
GD – Como eu disse no debate, o hábito social saudável de ir ao cinema vai continuar. Mas hoje já se verifica um outro hábito social. Todo mundo pode ter na sala de sua casa uma sala de exibição via internet, inclusive reunindo amigos. A garotada já faz isso diariamente, às vezes passando mais tempo na internet do que vendo um programa de televisão. Além do mais, os produtores independentes e o cinema nacional tem que procurar o público que não tem acesso. Além da internet, a que se criar salas de exibição em espaços não adaptados, exibir filmes ao ar livre, alternativas de cinema pós-mercado, fora da lógica econômica...
IFAM – Com toda esta sua visão e experiência na gestão pública do cinema o CTAV não está limitando sua atuação?
GD – Não, é um desafio novo. E isto pra mim está sendo ótimo, porque é um trabalho diferente de tudo o que já fiz. E é bom viver a mudança após ultrapassar a barreira dos 70 anos.