NOTÍCIA
O cinema militante de Renato Tapajós
crédito: Antonio Scarpinetti/Unicamp
Artesão da imagem, escritor, testemunho das transformações do cinema brasileiro desde a década de 1960, o paraense Renato Tapajós marca presença no Extra-FAM com sua última produção, Um Rosto no Espelho, documentário sobre os Pontos de Cultura. A exibição acontece na próxima quarta-feira (dia 16), às 14 horas, no auditório Garapuvu do Centro de Eventos da UFSC.
Com 64 anos de idade, jornalista, preso e torturado por resistir à ditadura civil-militar de 1964, produziu com uma equipe mínima e recursos escassos um clássico do documentário político brasileiro, Linha de Montagem. A iniciativa foi do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (SP), em meio ao vigoroso movimento grevista do final da década de 1970.
A produção representou uma virada na trajetória de Tapajós, iniciada em 1964 com o documentário Vila da Barca, vencedor do Festival de Leipzig (Alemanha), tendo como tema a vida em uma favela sobre palafitas no rio Amazonas. O futuro diretor saía da adolescência e já fazia crítica de cinema no jornal O Liberal (Belém do Pará), mas ainda estava em dúvida sobre a carreira a seguir. Passou no vestibular para o ITA, freqüentou as aulas por cerca de 15 dias e desistiu, prosseguindo os estudos na Escola Politécnica na capital paulista. Também não deu certo.
Cinema sindical
O passo seguinte foi ingressar no curso de Filosofia da USP, um caldeirão político entre os anos de 1964 e 1968. "Fui ser militante do movimento estudantil", disse à jornalista Camila Martins, produzindo documentários e escrevendo para as diferentes publicações surgidas no período. Membro da organização Ala Vermelha, preso em 1969, permaneceu até 1974 em diferentes presídios, sofrendo torturas e privações.
Quando deixou a prisão os integrantes da organização haviam feito uma autocrítica da luta armada e optado pela "luta de massas" junto ao operariado e trabalhadores do campo. Foi quando ele se aproximou do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, iniciando com um curso de cinema. Estava em plena atividade quando estourou a grande greve de 1979. Chamado pela diretoria, ouviu o apelo: precisamos fazer um filme, mas não temos dinheiro.
O desafio foi aceito e o trabalho realizado, com trilha de Chico Buarque e Novelli e narração de Othon Bastos. Concluído, o trabalho foi remetido à censura, que levou a apreciação em banho-maria, protelando a estréia. Corria o ano de 1982. A demora o levou a aceitar o desafio de exibir o filme no Sindicato, com a presença de dois mil metalúrgicos, a equipe de produção, Chico Buarque e Marieta Severo e, o então presidente da entidade, Luis Inácio Lula da Silva.
Os rolos na sacola
Logo que iniciou a projeção apareceu a polícia à mando do serviço de censura com ordens de confiscar os rolos de filme. Os operários impediram a passagem, criando um impasse. Tapajós, Chico, Lula e outros negociaram com os militares. À medida que os rolos fossem sendo passados, seriam entregues. A proposta foi aceita, mas os originais não chegaram aos policiais. Foram passados de mão em mão pelos metalúrgicos até a sacola de supermercado de uma funcionária do Sindicato, que, tranquilamente, deixou o local com o precioso tesouro sem ser importunada.
Com duração de 90 minutos, Linha de Montagem foi selecionado para o Fórum da Juventude do Festival de Berlim, em 1984. Depois disso ficou armazenado na Cinemateca Paulista até 2007, quando foi restaurado e remasterizado em Dolby Digital, resultando em copias 35mm de excelente qualidade.
Um Rosto no Espelho
O documento de média-metragem com 59 minutos a ser exibido dia 16 no Extra-FAM, resultou de um convite feito no início de 2009, feito a Tapajós pelo secretário do Audiovisual, Sílvio Da-Rin, interessado em destacar a implantação dos Pontos de Cultura. Nove meses depois do pedido, a produção da Tapiri Cinematográfica estava pronta.
A entrega saiu melhor que a encomenda. O Ministério da Cultura queria um trabalho que mostrasse as relações entre os movimentos culturais e as transformações sociais, mas deu sinal verde ao diretor para que fizesse um filme sob ótica própria e do seu jeito. Tapajós começou conferindo os trabalhos de entidades que receberam o suporte do Ministério, como a Casa de Cultura Tainá (Campinas-SP), o Núcleo Filhas da Dita (Olinda-PE), o Instituto Pombas Urbanas (Cidade Tiradentes, bairro da capital paulista), a aldeia de índios Ashaninka (Acre), núcleo Escolas das Artes que faz cinema no Ceará, e o grupo teatral Nós no Morro (Rio).
O jornalista João Nunes (Correio Popular, SP), destaca dois grandes méritos do trabalho. Primeiro a opção do cineasta de se colocar pessoalmente a partir do que presenciou durante as filmagens. Segundo, ao relacionar os pontos de cultura com iniciativas semelhantes em países latino-americanos como Bolívia e Colômbia. Além disso, segundo Nunes, "a beleza das imagens e a maneira como Tapajós conduz a câmera, sempre ágil ao buscar o ângulo menos previsível, além de uma narrativa no qual os costumeiros e, às vezes, excessivos depoimentos são substituídos por imagens que não apenas ilustram, mas demonstram a força dos grupos enfocados".