ENTREVISTA

Pepi Gonçalvez e a usina de sonhos audiovisuais de Cuba


A uruguaia Pepi Gonçalvez é professora e ex-aluna de uma das mais cobiçadas escolas de cinema do mundo, a Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños (EICTV), em Cuba. Ela traz ao FAM2010 nesta quarta e quinta uma seleção dos 12 dos melhores curtas-metragens realizados lá desde 1986, a mostra Outros Olhares: Antologia EICTV, inédita no Brasil, e vista só uma vez, no Uruguai.

Pepi se divide entre o Uruguai e Cuba. É também produtora, artista plástica e gestora cultural. Na escola é professora da disciplina de produção, e criou o Nuevas Miradas/EICTV encontro de projetos durante o Festival Internacional de La Habana. Coordena também o Proanima Uruguay, cluster de empresas, artistas de animação e desenvolvedores de videogames e dá oficinas de produção criativa em universidades e escolas de cinema da América Latina. Confira a entrevista.

Quais são as características da EICTV?
A EICTV também é conhecida como Escola de Todos os Mundos. É um espaço singular localizado numa zona rural da Província de Havana, a cinquenta quiômetros da capital. Ali se alojam mais de uma centena de estudantes do mundo todo e professores das mais diversas origens. A escola apresenta um modelo único para a educação audiovisual, que é a imersão total, durante três anos. Se fala e se vive só uma coisa, o cinema.

Por que escolher o FAM para apresentar essa antologia?
O FAM tem um público jovem, estudantes e pessoas que gostam muito de cinema. Esse público conhece e gosta de curtas-metragens e vai encontrar nesta seleção curtas feitos por pessoas de vários países. É um panorama de diversidade cultural e artística que tem muito a ver com o espírito do FAM. A expectativa é alta porque esta é uma mostra de materiais feitos por gente jovem, muitas vezes com humor, e será muito interessante ver como o público do FAM

Como foi feita essa seleção dos filmes? O que ela representa para a escola?
Quando uma instituição produz muito material por ano e o tempo vai passando, neste caso já 24 anos, ter uma seleção antológica permite de alguma forma ordenar os filmes segundo os valores que vão se mantendo ao longo do tempo, seu interesse artístico e sua vigência. A antologia é uma maneira, mas não a única de classificar os filmes que estão na preferência do público ao longo do tempo. Este grupo de filmes, escolhido entre 2 mil produções, coincide com os "grandes êxitos", os curtas mais premiados da história da EICTV.

Como é a dinâmica de produção dos alunos?
Os alunos fazem muitos exercícios fílmicos. No primeiro ano são exercícios de um minuto, de três minutos de documentário e três minutos de ficção. No segundo têm uma experiência de documentário de 10 minutos, fora da escola, e depois um exercício de ficção de 10 minutos. No terceiro é uma série documental, uma tese e um trabalho final de ficção em película. No meio de tudo isso tem outros exercícios, como um retrato documental realizado na Sierra Maestra e montagem de material de arquivo.

Qual a diferença de ter estudado na EICTV?
Estudantes e egressos às vezes têm que arcar com o peso dos nomes dos fundadores célebres e padrinhos da escola, como Gabriel García Marquez, Francis Ford Coppola, Fernando Birri, Robert Redford, etc., mas são vários que têm conseguido destaque no cinema internacional em muitas funções, como uma ex-aluna japonesa no desenvolvimento do ProTools, uma ferramenta fundamental para o trabalho com som, até a obtenção de um prêmio na última edição do Festival de Cannes, por um ex-aluno peruano da disciplina de roteiro. Outros como Juan Carlos Cremata, Benito Zambrano ou Marité Ugaz são referências do cinema em seus países. Do Brasil temos nesta antologia filmes de dois brasileiros, La Cura, de Rodrigo Melo, e El invasor marciano: 36 años después, de Wolney Oliveira. E sempre há alunos e professores brasileiros vinculados à escola. São um grupo muito especial por sua alta criatividade e sua identidade e porque obrigam todos nós a falar um estrito portunhol.