ENTREVISTA

Alice Gonzaga é sinônimo da Cinédia


Alice Gonzaga, escritora, pesquisadora e produtora, dirige há 30 anos a Cinédia, uma das principais produtoras cinematográficas do país, que completa oito décadas.

Filha do jornalista e diretor Adhemar Gonzaga, Alice se empenhou na preservação e restauração de clássicos como Alô, Alô Carnaval (1936) de Adhemar Gonzaga, Mulher (1931) de Octávio Gabus Mendes, Romance Proibido (1944), Anjo do Lodo (1950), Maridinho de Luxo (1938), Cortiço (1945) e O Ébrio (1946), obras fundamentais do cinema brasileiro. Já foram restaurados ou recuperados 18 filmes e outros sete estão em finalização.

Neste fim de semana o FAM exibe a Mostra Cinédia 80 anos e neste sábado, à noite, homenageia a Cinédia e consequentemente, Alice, cujo nome é indissociável da Cinédia.

Como se sente com essa homenagem do FAM?
Estou muito feliz e orgulhosa, também estou sendo homenageada no Femina (Festival Internacional de Cinema Feminino, no Rio de Janeiro) e recebi o Prêmio da Academia Brasileira de Cinema. É um reconhecimento do meu trabalho. Se eu não tivesse me empenhado na restauração, já há 30 anos, esses filmes não iam mais existir. A Cinédia é o estúdio brasileiro que mais se empenhou em restauração de forma sistemática, com o patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura.

Sua história se confunde com a da Cinédia.
Digo que Alice é Cinédia e Cinédia é Alice. Sempre me interessei pelo trabalho do meu pai. Assumir a Cinédia foi uma coisa que nunca pensei. Era dona de casa, com três filhos, até que um dia meu pai passou mal. Ele ficou morando seis meses comigo e aí minha ficha caiu. Se ele se vai, o que vou fazer? Vou trabalhar, vamos ver se dá certo. Entrei em 1970 e gostei, e ele ainda ficou junto comigo alguns anos.

Numa época que não havia investimento estatal em cinema, seu pai viabilizava os filmes de que forma?
Existe um cálculo atualizado em reais, ele investiu 20 milhões. Apenas o terreno do estúdio valia 500 contos de réis, um dinheirão. Ele investiu toda sua herança, fazia de tudo para realizar os filmes.

E quanto à história de O Ébrio? Foi mesmo a maior bilheteria do cinema brasileiro?
Alguns dizem que é Dona Flor e seus dois maridos, mas foi O Ébrio, sem dúvida, porque na época não se tinha a mídia que tem hoje, e a população era muito menor, foi um fenômeno. Teve 8 milhões de espectadores. O Ébrio era uma peça de teatro exibida na Praça Tiradentes. Vicente Celestino também era o protagonista, às vezes ele ficava vestido como mendigo na frente do teatro, pedindo esmola. Ele tinha um carisma enorme, a música tema estourou, na época ele era o único cantor que tinha um disco de ouro. Meu pai convenceu Gilda de Abreu a desistir de dirigir Viuvinha, filme que a Cinédia não estava conseguindo viabilizar. Ele disse a ela para escrever o roteiro e dirigir o marido no filme. E foi o que aconteceu. Um sucesso tão grande que depois Hollywood fez Farrapo Humano, imitando o filme.