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Momento político na AL favorece maior relação entre TVs públicas e produtores culturais


TVs públicas são parceiras da produção audiovisual brasileira e latinoamericana/Foto: Michele Diniz

O caminho de avanço nas relações entre as emissoras públicas e os realizadores de produtos audiovisuais tanto no Brasil quanto na América Latina é longo e necessário. Questões como as mudanças tecnológicas na comunicação, o papel das emissoras públicas e as perspectivas de integração cultural latinoamericana foram amplamente debatidos no painel "A TV Pública e Cultural no Mercosul", na tarde deste domingo (13) no 14º FAM, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC.

O painel realizado hoje é parte do Seminário de Cinema e Televisão do Mercosul, que integra a programação do 14º FAM. O debate cativou a platéia até o seu final em função da qualidade das abordagens dos palestrantes Silvio Da-Rin, gerente de Articulação Internacional da TV Brasil, Gabriel Priolli Netto, coordenador de Rede e de Expansão da TV Cultura de São Paulo, e Eva Piwowarski, integrante do Conselho de TV Digital da Argentina.

Ex-secretário do audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin destacou as importantes contribuições que os movimentos pela democratização da comunicação vêm dando particularmente quanto à realidade brasileira. "A realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, mesmo com resistências de segmentos empresariais, já produziu alguns resultados e outros deverão surgir a médio prazo", disse, referindo-se a questões como às cotas de exibição de produções regionais e produções independentes nas emissoras de televisão.

Lembrando que a principal emissora da Empresa Brasil de Comunicação, a TV Brasil, teve sua implantação acelerada nos dois últimos anos e ainda está em fase de construção, Da-Rin comemorou que cotas mínimas de exibição previstas no decreto de criação da EBC já foram alcançadas. "Ela – a TV Brasil - já superou os 10% de programação regional e 5% de programação independente em sua grade", registrou.

Eva Piwowarski relatou o significado da nova lei dos meios de comunicação para avanços na produção e difusão cultural argentina. "Apesar da grande reação dos meios de comunicação privados, que concentram a propriedade dos veículos, este novo marco legal e a introdução da TV Digital estão contribuindo para a abertura de muitos novos canais", disse. Segundo Eva, com a introdução da TV Digital no país é crescente a perspectiva de surgimento de novos conteúdos com respeito à produção cultural independente e cultura regional. "E o estímulo à programação renovada, variada e de qualidade é constante", relatou.

Já Gabriel Priolli Netto enfatizou o atual cenário de mudanças com a integração política e econômica de vários países da América Latina e seus efeitos na afirmação da identidade latinoamericana "autônoma em relação aos grandes centros capitalistas". Criticou, contudo, que no Brasil as mudanças são mais lentas "em função do poderio político e econômico dos donos dos meios privados". Quanto à exibição da produção audiovisual independente nas emissoras privado-comerciais, Priolli expressou o sentimento que envolve os produtores culturais. "Os conteúdos que não favorecem a lógica da grande audiência são sacrificados", disparou.

E foram as novas possibilidades surgidas com as variadas formas de acesso ao vídeo com o advento das novas tecnologias que dominaram o debate. Algumas previsões futuristas apontaram que mesmo a TV comercial não resistirá mais de 15 anos com o formato que a conhecemos hoje. "Elas se limitam à qualidade da imagem e do som com a TV digital e com uma interatividade pobre com o público" criticou Priolli, exemplificando como principal produto da relação da Rede Globo com o público hoje os conteúdos exibidos no quadro "Bola Cheia e Bola Murcha", do programa dominical "Fantástico".

Foi consenso entre os debatedores que a convergência tecnológica e o surgimento de novas mídias podem fazer com que no futuro a televisão deixe de ser a principal "janela" de exibição da produção individual. "Mesmo porque já surgem possibilidades como a do indivíduo utilizar a TV para conectar-se com a internet, ou mesmo de qualquer cidadão exibir no You Tube um vídeo que produziu", lembrou Gabriel Priolli.

Também houve consenso de que as TVs públicas hoje são grandes parceiras dos produtores independentes, pois exibem muito mais conteúdos de cinema e vídeo produzidos por estes realizadores do que as TVs comerciais. Mas para que esta parceria evolua é preciso que as TVs públicas evoluam também no aspecto tecnológico, com relação às novas possibilidades que advirão com o desenvolvimento da TV Digital e de novas mídias.

Para Silvio Da-Rin, esta relação entre as TVs públicas e os produtores independentes pode e deve evoluir mais, também, à medida que estes realizadores preocupem-se com uma produção cinematográfica para TV, observando as especificidades deste veículo. E apontou entre as carências na grade de programação das TVs públicas, um maior relacionamento com o público infanto-juvenil.

Os participantes do painel concluíram que é preciso aproveitar o momento político favorável na América Latina para que se avance também nas relações culturais, superando preconceitos e contribuindo para que as relações entre as emissoras públicas e os realizadores de cinema e vídeo também dêem um salto de qualidade.

O Seminário de Cinema e Televisão do Mercosul prossegue nesta segunda-feira (14), às 15h, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC, com o painel "Indústria Audiovisual e Economia", que contará com as participações de João Carlos Massarolo, especialista em cinema da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Alexandra Meleiro, Coordenadora do Centro de Análise do Cinema e do Audiovisual (CENA), e de Mário Diamante, diretor da Agência Nacional do Cinema (ANCINE).

Todos os painéis do seminário podem ser acompanhados pela internet. Para acessar, clique aqui.