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01.07.2011
O tempo que dura a vida de um curta
O painel Vida do Curta, realizado ontem pela manhã no Forum Audiovisual Mercosul, os curtametragistas que participaram do FAM2011 discutiram formas de distribuição, participação em festivais, orçamentos e divulgação, editais de produção e, principalmente, a duração de um curta e como fazer para que as obras alcancem o maior número de pessoas.
A conversa foi mediada pelo produtor paulista Leonardo Mecchi, que afirmou que a carreira de um curta, no Brasil, tem uma realidade um pouco melhor do que nos países vizinhos. Segundo dados de 2006, havia no Brasil 130 festivais que exibiam curtas, o que representava, no total, algo em torno de 2,2 milhões de espectadores em cerca de 9 mil exibições.
Mecchi lembrou que a lei que determina a exibição de curta-metragens antes dos longas, em todas as salas do Brasil, continua em vigor, apesar de não ser respeitada e que, além disso, existem espaços como os sites (portacurta, curtaocurta e curtadoc), canais de tevê como o Canal Brasil e a TV Brasil, e nos cineclues espalhados por todo o país.
Segundo o diretor mineiro Gilberto Scarpa, um curta-metragem no Brasil pode ger um público muito maior que um longa. "Se a gente quiser que o nosso filme seja visto, janelas não faltam", disse, citando os mesmos espaços e canais acima.
De acordo com Juan Manlio Zoppi, assistente de direção do curta Árbol, na Argentina, a vida de um curta é de apenas um ano, o tempo de percorrer o circuito de festivais. "Na Argentina, o curta é considerado uma prática, um aprendizado, não tem o status de obra de arte", disse.
Segundo ele, não existem editais nas províncias, apenas o edital do Incaa (Instituto Nacional de Cine y Artes Visuales), que atualmente concede 120 mil pesos (R$ 45.540,00) para 10 curtas de até 10 minutos de duração. "A expectativa na Argentina é que, com a Nova Lei de Mídia e da TV Digital, tenhamos mais oportunidades de exibição para os curtas".
Representante do curta paraguaio Calle Última, de Marcelo Martinessi, a produtora Pura Limpia Concepción disse que fazer curta-metragens no país é um privilégio de quem tem dinheiro (a única faculdade de cinema do país é particular), e que a única maneira de pessoas comuns poderem fazer filmes é através de associações com organizações não governamentais.
Segundo ela, Calle Última foi realizado através de um convênio com a União Europeia, e o filme tem por objetivo dar voz às crianças expostas a situações de violência e exploração, que vagueiam pelas ruas de Assunção, abandonadas à própria sorte.
Atriz e produtora do curta Tchau e Bênção, a pernambucana Sarah Hazim disse que se tornou comum no Recife os realizadores (principalmente os ligados às produtoras Trincheira Filmes e Símio Filmes) copiarem em DVDs os seus filmes e colocá-los à venda (a R$ 10 ou 20, dependendo da obra) em locadoras, cafés e outros pontos culturais da cidade.
Na opinião de Sarah, a estratégia de marketing, incluindo-se aí os custos para participação em festivais, devem estar previstos no oçamento das produções. "Até a elaboração do cartaz tem que estar no orçamento", disse ela.
Diretor de Zés, Piu Gomes disse que isso é difícil de se fazer porque o dinheiro de editais normalmente mal dá para concluir as filmagens. Segundo ele, o realizador de curta-metragem no Brasil vive o dilema de querer exibir o seu filme para o maior número de pessoas, mas também querer ser remunerado por isso. "Tem festival que manda o teu filme para tevê pública e você não ganha um tostão por isso", disse.
O cearense Heraldo Cavalcanti, diretor do curta A Casa das Horas, reclamou dos festivais que não dão prêmios nem passagem e hospedagem aos realizadores. "Muitos festivais acham que fazem um favor em exibir os filmes", afirmou, acrescentando que, dos cerca de 270 festivais existentes hoje no Brasil, apenas uns 30, entre os quais o FAM, oferecem algo em troca das exibições.
Leonardo Mecchi sugeriu que fosse retomada a discussão, no âmbito do Fórum dos Festivais, de se viabilizar um "short film depot", um local onde os curtametragistas pudessem fazer o upload de suas obras e preencher os dados de uma única ficha de inscrição que seria disponibilizada a todos os festivais do país.
Coordenadora de Mostras do FAM 2011, Marilha Naccari disse que é difícil receber a inscrição dos filmes com os dados completos. "As informações não chegam, e a gente acaba se tornando babás dos filmes. Também temos problemas de fronteira, com filmes sendo retidos na alfândega, principalmente na Argentina", disse Marilha, acrescentando que questões como remuneração e convites têm que ser olhadas pelos dois lados, o dos realizadores e o dos organizadores dos festivais, que também enfrentam problemas de atrasos nos pagamentos das verbas de patrocínio e das leis de incentivo. Para Marilha, se os realizadores fizerem um bom calendário e mandarem cópias para todos os festivais que lhe interessem participar, um curta-metragem pode rodar durante dois anos.


