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Celso dos Santos, coordenador do FAM, e Nelson Pereira dos Santos/foto Daniel Guilhamet

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14.06.2012

Nelson: “Cinema é arte coletiva que fala para o coletivo”

Um dos maiores nomes do cinema brasileiro e grande representante do Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos relatou suas peculiares experiências como diretor numa coletiva de imprensa do 16º Florianópolis Audiovisual Mercosul nesta quinta-feira, 14, na Academia Catarinense de Letras, em Florianópolis, véspera da abertura desta edição do festival.

Nelson, 83 anos, falou de sua relação de vida com o cinema e a literatura, que começou com o estímulo de um bom professor de língua portuguesa na escola. O diretor é conhecido por suas adaptações literárias para a tela grande, entre elas Azyllo Muito Louco, adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, filmes exibidos pelo pré-FAM nessa semana. “Acredito na tendência pluralista do cinema, ele é uma arte coletiva que fala para o coletivo. Não precisa ser necessariamente alfabetizado para entender a linguagem dessa arte”.

Quanto à questão de autoralidade, Nelson foi claro: “Você tem que adaptar uma linguagem para outra, o que não é fácil, pois tem de ser feito com muito cuidado e respeito. Não vou contar algo que Machado de Assis não contou em seus romances, por exemplo. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, era um roteiro pronto. Mas também não pude respeitar a ordem cronológica de Graciliano Ramos, se não meu filme ficaria fragmentado. Foi preciso adaptar Vidas Secas para uma linearidade”.

Seu trabalho como documentarista, especialmente nos seus últimos anos, trouxe o diretor ao FAM. A luz do Tom, seu filme inédito, sobre o maestro Tom Jobim, foi parte filmado em Florianópolis em 2008 e será lançado nesta sexta, 15, na abertura do FAM 2012. “Quando começou o projeto Tom Jobim, soube que um filme só não daria. Então fiz um filme sobre a memória do Tom. Consegui convencer Helena, sua irmã, que escreveu um livro sobre ele”. O livro que deu base ao documentário é “Antônio Carlos Jobim: um homem iluminado”, de Helena Jobim.

A entrevista com Helena foi em Florianópolis, onde as praias lembram o Rio de Janeiro dos anos 30, segundo o diretor. A primeira esposa, Thereza, foi entrevistada na serra de Itatiaia, no Rio de Janeiro, e Ana, a segunda mulher, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “O outro filme foi sobre a música de Tom, A música segundo Tom Jobim, com material de arquivo. Tinha feito um documentário para a TV Manchete, e a maior parte do arquivo foi perdido, mas graças ao Instituto Tom Jobim conseguimos resgatar algumas cópias em VHS”, disse. A música segundo Tom Jobim foi aplaudido de pé em Cannes este ano.

O diretor segue trabalhando, e já concluiu o roteiro de seu próximo filme, sobre D. Pedro II, baseado num livro de José Murilo de Carvalho, que será lançado em 2013.

Graças a entusiastas da plateia Nelson prolongou suas reflexões sobre o cinema brasileiro atual: “Tem muita coisa boa sendo feita atualmente, e acredito que apesar dos rumos mercadológicos que está tomando o cinema brasileiro, continuará assim. Enfim os polos de produção audiovisual estão sendo quebrados. Gosto muito do que está sendo feito no Nordeste, no cinema de Pernambuco, também da Casa de Cinema de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Quanto a diretores atuais, gosto muito do Cláudio Assis e do Jorge Furtado”, disse.

Sobre o FAM, o diretor disse que a experiência de integrar o cinema latinoamericano realizada no festival segue a escola do 1º encontro de cineastas latinoamericanos, em Montevidéu, realizado em 1958, e do Festival de Havana, Cuba. “O FAM tem a função de preservar essa experiência e interessar o público catarinense pelo cinema brasileiro e de países vizinhos”, concluiu o diretor.

 

 

 

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