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08.06.2011
Fé na liberdade e na utopia
O cineasta paulista (nascido gaúcho) Carlos Reichenbach será homenageado antes e durante o FAM 2011, que começa no dia 24 de junho no Centro de Eventis da UFSC. Nos dias 20, 21 e 22 de junho, no Cine Pitangueira, na Casa das Máquinas, na Lagoa da Conceição, a partir das 19h, serão exibidas três obras do diretor, Filme Demência (1985), Alma Corsária (1993) e Garotas do ABC (2003), respectivamente. Carlão também participará do Fórum Audiovisual Mercosul, no painel com os diretores sobre o cinema latino-americano intitulado A estética singular do solstício. Nesta entrevista, ele fala da situação atual do cinema brasileiro, das pessoas que o influenciaram, do seu próprio cinema e dos projetos que estão em andamento e/ou sendo pensados.
Pergunta - Tu participaste do primeiro FAM, em 1997, e, de lá para cá, o que acreditas que tenha mudado no audiovisual brasileiro (em 2002, houve a criação da Ancine), tanto na questão de política pública quanto no intercâmbio cultural com os países vizinhos?
Carlos Reichenbach - Mudou muita coisa. No final do anos 1990 e ínicio dos anos 2000, a produção brasileira experimentou a verdadeira parceria com as televisões estatais, nos moldes do cinema francês e alemão, através do PIC TV, da TV Cultura. Infelizmente, essa aliança morreu por ausência de estímulo na mudança do governo do Estado de São Paulo e, pior, dos próprios cineastas paulistas. O neoliberalismo isentou, definitivamente, o Estado da função de mecenas cultural, e as leis de incentivo foram “democratizadas” de tal forma, que, entre outras perversões, fizeram surgir estranhas categorias profissionais na área audiovisual (na maior parte, novos tipos de intermediários). Me assusta, hoje, ver produtores independentes se acomodando na função de testas-de-ferro de canais de televisão e/ou de majors estrangeiras. O momento é crítico com a produção polarizada entre filmes de alto orçamento e/ou subprodutos da tevê comercial e filmes pequenos, semiamadores, captados digitalmente e destinados às salas de arte e ensaio (geralmente, uma ou duas exibições por dia). Em síntese, o chamado “filme médio”, aquele que sustenta e dá sentido à qualquer cinematografia, não tem mais espaço neste panorama.
Pergunta - Florianópolis é a terra do Ody Fraga, com quem trabalhaste na boca-do-lixo em São Paulo, em 1979, fazendo câmera e direção de fotografia no filme A Dama da Zona - Hoje tem Gafieira. Como ela era como diretor e roterista, como foi esse convívio com ele, e queria saber também se, de alguma forma, ele contribuiu com o teu fazer cinematográfico?
Reichenbach - Ody Fraga era um “ser cinematográfico”. Nos divertimos muio filmando A Dama da Zona. Mas Ody não teve nenhuma influência na minha carreira (como tiveram, por exemplo, Luis Sérgio Person, Oswaldo Sampaio, Roberto Santos e Paulo Emílio Salles Gomes, mestres desde o começo). De Santa Catarina, Joaçaba, a influência veio de dois grandes amigos da época de cinefilia: João Callegaro e Rogério Sganzerla. Aliás, foi o Callegaro quem me convenceu a prestar vestibular na Escola Superior de Cinema São Luiz.
Pergunta - Tu selecionaste inicialmente quatro longas para serem exibidos aqui no FAM 2011, um de cada década da tua produção em cinema. Em que a tua linguagem fílmica foi se modificando (se é que se pode dizer isso no sentido de evolução) de um para outro? Cada um representa, também , uma visão de cinema e de Brasil diferente, ou o país ainda é o mesmo (nas relações de poder e sociais), tantos anos após a democratização?
Reichenbach - Ainda recentemente, me dei conta que o assunto essencial dos meus filmes é sempre o mesmo: a fé na liberdade e na utopia. Claro, isso tem a ver com a minha formação ideológica e o meu interesse pelos pensadores libertários. Um estudante que está fazendo seu TCC em cima de Lilian M, Relatório Confidencial, me perguntou há alguns dias, porque a protagonista, depois de voltar para o campo e a família nos minutos finais, acabava retornando à estrada. Respondi para ele que Lilian/Maria era uma versão feminina de Fausto (de Filme Demência), para quem “o importante não era chegar; mas viajar, mergulhar na estrada, na própria perdição, na busca obsessiva de Mira-Celi, o reduto final; nem quem para isso seja necessário estilhaçar o próprio espelho. Em suma: Fausto, Lilian, os poetas de Alma Corsária, o clandestino de Dois Córregos, as operárias de Garotas do ABC e Falsa Loura, o radialista de O Paraíso Proibido, os exilados de A Ilha dos Prazeres Proibidos, os hippies fora-de-época de O Império do Desejo, etc, etc.... todos são herdeiros da tradição insurreta de 1968 (“Eu não sei o que eu quero; eu sei o que eu não quero!”).
Pergunta - Dez anos depois das pontes de safena, como está o Carlão, quais os projetos que estás tocando? O teu blog continua compartilhando informação e disseminando o conhecimento da música, do cinema e das artes em geral. Em março postaste que irias te ausentar um pouco, mas vi que já voltaste à ativa. Tem alguém te ajudando com ele?
Reichenbach - E preciso deixar bem claro: eu sou totalmente à favor do compartilhamento de acervo e radicalmente contra a pirataria. O contexto é: se eu recebo de graça um relíquia, eu tenho a obrigação de compartilhá-la. Seria genial se todos nós, leitores ávidos (e raros) repassássemos, imediatamente, todos os livros que nos fascinaram para outros aficionados. Ainda falta uma última cirurgia (a dos olhos, em meados de julho) para voltar plenamente à ativa. Tem um longa-metragem em processo de pré-pré-pré produção, Um Anjo Desarticulado (um projeto de 10 anos de gestação). Volto para a região centro-oeste de Sâo Paulo, onde filmei Dois Córregos e parte de Alma Corsária. O filme narra a viajem de um agnóstico em busca do “Deus escondido”. Há também dois projetos de baixo orçamento, que são fantasias anarcoantropofágicas que me dão extremo prazer em “conspirar”: Lenin em Lindoia (e se Lenin tivesse se exilado em Lindoia, ao invés da Polônia ou Zurique?) e Sessenta Vestais Virgens (um mergulho lisérgico e malcriado nas espumas do metacinema de invenção e do cinema de carregação).
Na foto: Carlão Reichenbach (D), o jornalista e crítico José Geraldo Couto e Ivana Bentes, professora de cinema da UFRJ, em bate-papo no primeiro FAM, em 1997
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