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04.06.2011
Reus começou a ser escrito na Joaquina
Produtor e corroteirista de Reus, junto com os diretores Eduardo Piñeiro e Alejandro Pi, o uruguaio Pablo Fernández fala nesta entrevista sobre o mito do bairro que dá nome ao filme, onde se localiza a zona atacadista de Montevidéu e que foi formado por imigrantes de origens e religiões diversas. Convivendo em paz durante décadas, os moradores de Reus hoje enfrentam uma nova realidade com a violência ligada ao submundo das drogas e a luta pelo controle dos pontos de tráfico. Filme cujo roteiro começou a ser escrito na Praia da Joaquina, em Floripa, Reus retorna agora pronto à cidade para ser apresentado na Mostra de Longas Mercosul do FAM 2011.
Pergunta - Reus é uma coprodução da uruguaia Sueko Films com a produtora brasileira Panda Films. Recentemente, os presidentes de Brasil e Uruguai assinaram um acordo para produção em TV digital. Isso significa que outras novas coproduções entre os dois países deverão sair nos próximos anos?
Pablo Fernández - O protocolo de cooperação firmado no Uruguai, em 2010, entre o Instituto do Cinema e Audiovisual do Uruguai (ICAU) e a Agência Nacional de Cinema (Ancine), fomenta a coprodução do longa-metragens. Este acordo vai significar mais e melhores coproduções entre ambos países. Se bem que o acordo significa uma grande ajuda econômica, acreditamos que o mais importante é o intercâmbio cultural e profissional que farão crescer as produções de cada país.
Pergunta - Qual é o mito do bairro Reus, e quais são os códigos que lá funcionam?
Fernández - Reus é um dos bairros mais significativos de Montevidéu porque alí coexistem grandes comércios com fachadas coloridas com cortiços pobres e quase em ruínas. O mito de Reus é que se transformou no local onde se estabeleceram diferentes imigrantes, entre eles a comunidade judaica, poloneses, espanhóis, italianos, armênios e russos. Todos conviveram no bairro mesclando seus costumes e convivendo em paz cada um respeitando suas crenças e religiões. No bairro Reus encontram-se as primeiras sinagogas, asim como as primeira igrejas russas. Esta mescla de imigrantes, costumes e religiões, sem dúvida, foram a base do mito que criou o bairro. Hoje em dia, os códigos que funcionam no bairro são bem distintos dos de suas origens. No bairro Reus se localiza o centro comercial atacadista do país (parecido com a zona de comércio da 25 de março de São Paulo) e, ali, a maioria dos comerciantes pertencem à comunidade judaica. Estes comerciantes convivem com famílias com raízes profundas na zona onde os códigos de convivência entre eles mudaram. O filme Reus retrata, a partir de um ponto de vista realista, os códigos com os quais se comanda hoje o bairro.
Pergunta - Vocês já disseram que o roteiro de Reus começou a ser no Brasil, em Santa Catarina, aonde o filme será apresentado no FAM 2011. Como é para vocês este retorno ao princípio?
Fernández - Um dos diretores, Eduardo Piñero, que teve a ideia original do projeto, estava trabalhando em Florianópolis em 2003. E fui lhe fazer uma visita neste mesmo ano para discutir sobre o desenvolvimento de projetos. Foi na Praia da Joaquina, onde surgiu a ideia, que eles decidimos começar a escrever o roteiro do filme. Ter a possibilidade de participar do FAM e voltar a Florianópolis é, para nós, muito especial tanto a nível profissional com pessoal.
Pergunta - A violência e o tráfico de drogas são realidades comuns aos grandes centros urbanos. Que particularidades da situação em Montevidéu vocês quiseram retratar no filme?
Fernández - Os temas que retratamos no filme são a violência urbana, a inseguridade, a luta entre delinquentes pelo controle do bairro, as consequências do ingresso da pasta base (crack) na sociedade, a justiça pelas próprias mãos e os códigos com que estes personagens se conduzem e os códigos que já se perderam. No filme Reus se retrata o contexto social que vive a cidade de Montevidéu. A particularidade que há nele é que se trata destes assuntos, que hoje em dia são do debate político-social, a partir de um ponto de vista real, e não moral. Por isso, é um filme policial de bairro que mostra os conflitos, códigos e valores que ali convivem, com suas particularidades, suas raízes e suas características.


