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José Genoíno, ex-guerrilheiro, no filme de Hermes Leal / foto Julie Tseng

Entrevistas

20.06.2011

Outro olhar sobre uma guerra escondida

Cineasta e escritor, editor da Revista de Cinema, Hermes Leal nasceu em 1959, em Araguaina, na região do Bico do Papagaio, hoje estado de Tocantins, e tinha pouco mais de 12 anos quando presenciou a ocupação de sua cidade por parte dos militares que foram enviados para debelar a Guerrilha do Araguaia. E a rua onde Hermes morava fazia a ligação entre o aeroporto e um puteiro à margem do Rio Tocantins, na cidade de Carolina, sul do Maranhão, onde os soldados aproveitavam a folga dos combates contra os guerrilheiros.
Essa história é contada no documentário Soldados a Caminho do Puteiro – Memórias de uma Guerra Quase Imaginária, que Hermes Leal vai apresentar no 15ª Florianópolis Audiovisual Mercosul, dentro da Mostra de Longas, na sexta-feira, dia 1º de julho, antes da solenidade de premiação do FAM 2011.
No filme, Hermes Leal busca na memória dos moradores as lembranças da época, procura saber como a guerra os atingia (muitos nem sabiam o que acontecia, outros faziam parte do conflito). E enquanto os moradores relatam uma guerra imaginá­ria, os guerrilheiros e especialistas relatam a guerra real. Foi a maior organização de tropas militares no país desde a Segunda Guerra Mundial. Na entrevista a seguir, Hermes Leal fala da sua experiência no Araguaia e sobre a guerra que foi fazer o documentário:

Pergunta – O que foi a Guerrilha do Araguaia?
Hermes Leal –
Foi uma guerra que ocorreu entre 1972 e 1974, no norte do Tocantins e sul do Pará, onde 15 mil soldados enfrentaram menos de 100 guerrilheiros, em uma luta de selva sem precedentes na história do Brasil. Como estávamos no auge da repressão política, essa guerra foi abafada pela censura e ninguém sa­bia que ela estava acontecendo. Após os militares terem sido der­rotados duas vezes, eles usaram pistoleiros e mateiros para caçar os guerrilheiros como animais. Es­ses mateiros ganhavam por cabeça de guerrilheiro encontrado. Assim traziam para os quartéis apenas as cabeças cortadas, os corpos ficavam na mata. Foi uma carnificina e uma crueldade muito grande, especial­mente com as mulheres.

Pergunta - Quem eram esses guerrilheiros?
Leal -
Eram na maioria estudantes univer­sitários do Rio de Janeiro e São Pau­lo. Não tinham experiência de vivên­cia na selva e ficaram mais de dois anos treinando até começarem os combates. Só sobreviveram os que foram presos antes da guerra come­çar, como José Genoino, por que de­pois não sobrou ninguém, nem uma história real existe. O PCdoB tem uma versão e os militares, outra.

Pergunta - Por que o nome Soldados a Cami­nho do Puteiro?
Leal -
Porque o filme faz parte de um pro­jeto maior. É um dos capítulos da Guerra do Araguaia. A maior parte deste documentário foi filmada em uma rua de uma pequena cidade que viveu os dramas da guerra sem saber ao certo o que estava aconte­cendo. E onde eu vivia quando tinha 12 anos, em 1972. Viro um pouco personagem também. A minha rua ligava o porto no Rio Tocantins, onde ficava o puteiro, ao aeroporto onde ficava o quartel de onde os soldados partiam para a guerra na floresta. Nós sabíamos da guerra porque os soldados passavam feridos. Esse documentário é um extrato de um projeto maior, como eu dis­se, que envolve um filme de ficção sobre o tema, chamado Em Pé de Guerra, que já está em captação, e uma série para a televisão, Guerra do Araguaia, onde vamos relatar os detalhes desse conflito militar que até hoje nunca terminou de fato.

Pergunta - Como não terminou a guerra?
Leal -
Não terminou porque desde 1974, quando o conflito chegou ao fim, o exército e o governo brasileiro não informaram às famílias onde estão os corpos de quase 50 guerrilheiros mortos em combate, desaparecidos até hoje.

Pergunta - Por que o Brasil está sendo julga­do pela OEA com relação a esse conflito?
Leal -
Exatamente por isso. Porque não re­vela aos familiares como esses guer­rilheiros foram mortos, e que destino deram aos corpos. Os militares que cometeram essas atrocidades go­zam hoje de total liberdade, e não falam a respeito desse incidente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA tenta obrigar o Brasil a responder pelas acusações de detenção arbitrária, tortura e de­saparecimento forçado de dezenas de guerrilheiros. E pretende julgar o país por isso. É um assunto sério que parece adormecido até hoje.

Pergunta - Como foram as filmagens?
Leal -
As filmagens foram realizadas em apenas uma rua da cidade de Ca­rolina, que fica no lado maranhense do Rio Tocantins, onde hoje moram pessoas que tiveram contato com os guerrilheiros. Mas também filma­mos nas cidades próximas onde os guerrilheiros se esconderam antes de fugirem para a mata durante os conflitos. Entre nossos personagens estão o ex-guerrilheiro José Genoi­no, testemunha viva do que aconte­ceu, um pescador que virou poeta, historiadores e pessoas comuns da região. Também fomos atrás da lenda que Che Guevara passou pela região. E destacamos grandes mitos da guerrilha, como o Osvaldão, que era quase imortal, e Dina, a mais va­lente de todas as guerrilheiras e que tinha poderes mágicos para a popu­lação local.

Pergunta - O que espera do filme?
Leal -
Como não temos imagens nem tes­temunho do que realmente houve dentro da floresta, nosso objetivo é abrir o debate para o tema e forçar o governo federal a divulgar as infor­mações que tem. Assim podemos fazer um trabalho mais completo so­bre esse que foi o maior conflito mi­litar envolvendo as forças armadas desde a Segunda Guerra Mundial. E não chamo isso de Guerrilha do Ara­guaia, mas de Guerra do Araguaia. Precisamos ter um outro olhar sobre esse conflitos.

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