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Eva Piwowarski durante o FAM 2006/ Foto Daniel Guilhamet

Entrevistas

21.06.2011

Eva Piwowarski avalia os avanços (e os retrocessos) dos intercâmbios audiovisuais no Mercosul

Atriz e cineasta, produtora de longas-metragens de ficção e documentários para televisão, Eva Piwowarski é atual coordenadora do Programa Polos Audiovisuais da TV Digital Argentina, que promove a produção televisiva federal junto ao sistema universitário nacional argentino.
Ex-secretária técnica da Recam (Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul), que ajudou a criar, foi diretora do Programa Mercosul Audiovisual da União Europeia. É também fruto de seu engajamento o primeiro acordo de distribuição audiovisual entre Argentina e Brasil.
Eva é conhecida nas discussões do FAM e vem novamente a Florianópolis para participar do debate “Criando, gerindo e disseminando conteúdos digitais”, parceria do Fórum Audiovisual com o 1º Congresso de TV Digital, que ocorre também dentro da programação do FAM 2011.
Nesta entrevista ela fala sobre os intercâmbios audiovisuais e destaca iniciativas como a da União Europeia, com a diretriz “Televisão Sem Fronteiras”, que cria cotas de audiência e reserva aos produtos europeus.


Pergunta - Tivemos avanços nos últimos anos nos intercâmbios audiovisuais no Mercosul?
Eva Piwowarski - Sim, tomando como referência os últimos 10 anos e mais os avanços que cada país fez em sua própria cinematografia, podemos dizer se avançou muito, sobretudo nas legislações de apoio e fomento à produção e na quantidade de produção, processo também estimulado pelas tecnologias digitais.
Entretanto, esse processo coincide com uma maior concentração de mercado das salas de cinema por parte da produção hollywoodiana. Esses processos se intensificam, dando lugar a carência mais absoluta de uma diversificação da oferta das salas, sufocando a produção nacional e de outros países, inundando os mercados com múltiplas cópias de blockbusters como Kung Fu Panda e restringindo a oferta a dói ou três títulos nos multiplex.
No tem processo histórico que não tenha avanços e retrocessos e o Mercosul Audiovisual não é alheio a esta regra. Entre 2003 e 2003 criou-se a Recam, ocorreram avanços nos intercâmbios e na aproximação das instituições, cresceram as coproduções entre nossos países, mas não houve crescimento de mercado, a exceção do que se conquistou com o Acordo de Distribuição entre Argentina e Brasil, que permitiu que no ano de 2004 estreassem oito títulos de cada país no outro e em 2006, 14 títulos em Brasil, mas sem réplica na Argentina, o que determinou sua finalização em 2007.

Pergunta - Não tenho conhecimento de como é na Argentina e em outros países, mas as televisões públicas e estatais no Brasil ainda têm muito pouca programação dos países do Mercosul. O que bloqueia esses intercâmbios? São barreiras alfandegárias, comerciais, econômicas ou culturais?
Eva - Em princípio a televisão é bairrista, ou seja, consome primeiro o próprio. Necessita repetição, programas ao vivo, estrelas próprias, etc. Além, em geral, apoiam a pauta publicitária, o que dificulta a venda de produtos de fora.
Também está o fator da concentração econômica das audiências, que em alguns países como a Argentina, requereu uma lei para regular e promover a democratização dos meios e conteúdos, lei que teve muita resistência do poder da midiático e monopólico.
A isso ainda tem que somar as inércias culturais. É interessante que na Argentina, o Canal Encontro tenha dado lugar a programação brasileira de qualidade e também a Telesur está fazendo enorme esforço para criar uma programação regional. As telenovelas brasileiras são assistidas em quase todos os países. A TV privada uruguaia é repetidora de canais privados argentinos.
Mas a grande batalha é criar condições jurídicas e econômicas que modifiquem a estrutura de negócios atual, para que se crie um verdadeiro mercado audiovisual do Mercosul. A União Europeia, por exemplo, com a diretiva “Televisão Sem Fronteira”, cria cotas de audiência para o produto europeu.

Pergunta - Esta agora coordenando o Programa Polos Audiovisuais da TV Digital Argentina. Como é o trabalho neste programa? É um modelo possível para o Brasil?
Eva - Desde o Conselho Assessor da Televisão Digital Argentina trabalhamos na instalação de capacidades para a federalização da produção de conteúdos para a TV Digital, um tema importante em um país centralista. Na Argentina, 90% da produção televisiva está concentrada em quatro empresas radicadas em Buenos Aires.
Impulsionamos a criação de sistemas produtivos locais e sustentáveis (Nós) para assumir o comando da televisão local e que compartilhem espaços nacionais, que em rede compõem os polos regionais. Creio que o trabalho colaborativo e associativo para dar ao mercado a auto-sustentabilidade e em rede é bom modelo para qualquer país.

Pergunta - Pode destacar alguma ação efetiva de sucesso, com resultados, dos intercâmbios audiovisuais no Mercosul?
Eva - O Acordo de Cooperação entre o Mercosul e a União Europeia, chamado Programa Mercosul Audiovisual, que hoje é administrado pela Argentina e que visa criar uma rede de salas digitais para o cinema do Mercosul. Em outro momento, o Acordo de Codistribuiçao, os acordos de coprodução bilaterais, enfim, houve avanços e se tem esperança de seguir se aperfeiçoando.
Seria absurdo desperdiçar um momento histórico como este, que já dura mais de oito anos, com governos amigos, coincidentes, democráticos e com claros objetivos de desenvolvimento econômico e social, como hoje nós temos no Mercosul, somado à revolução digital. O cinema e o audiovisual merecem estar neste contexto e aproveitar estas oportunidades.
 

 

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