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22.06.2011
Frescor no cinema nacional, conversa com Gustavo Pizzi
Se não há dúvidas de que a diversidade de linguagens e olhares invadiu – para o bem – o cinema brasileiro, também não se questiona que um sopro fresco tomou conta das produções recentes. Um exemplo dessa nova linhagem é Riscado, de Gustavo Pizzi. O primeiro longa-metragem de ficção do diretor compõe a Mostra de Longas Mercosul do FAM 2011, com exibição no dia 29 (quarta).
Pizzi, jovem diretor nascido em 1977, traz um filme que pode ser a história de qualquer um, de qualquer pessoa que pretende ter sucesso com aquilo que se sabe melhor fazer. Nasce de uma inquietação e também da observação de que em algumas pessoas a chance chega, mas escorrega, e, com outras, é possível seguir em frente.
Nesta entrevista, o diretor fala sobre o roteiro, escrito com a mulher, Karine Teles, atriz principal do trabalho e premiada pela atuação no Festival do Rio, sobre a experiência de rodar o filme em apenas 12 dias e sobre a linguagem e escolhas na sua ficção de estreia. Pizzi trabalha com cinema desde 1996, é produtor dos premiados curtas 7 minutos e A Distração de Ivan e também produtor e montador do documentário L.A.P.A. Em 2006 dirigiu seu primeiro filme de longa metragem, o documentário Pretérito Perfeito. Riscado chega ao FAM com uma expressiva trajetória de festivais, muitos dos quais, internacionais.
Pergunta - Pizzi, você escreveu o roteiro junto a Karine Teles, sua mulher, a história veio de alguma incomodação dela, sua, tem algum traço biográfico? Como nasceu esse primeiro longa de ficção?
Gustavo Pizzi - Riscado fala de todo mundo que busca se estabelecer, todas as pessoas que almejam ser bem sucedidas fazendo o que melhor sabem fazer, usando da melhor maneira o que acreditam ser a sua vocação. A gente queria muito falar dessas coisas nesse momento da nossa vida, enquanto a gente está envolvido com essas questões. A gente queria falar de trabalho, oportunidade, sorte (existe sorte?), talento... a gente quer conquistar espaços e buscar novas oportunidades pra crescer na vida e sermos pessoas melhores, e, conseguirmos nos sustentar com o que a gente melhor saber fazer... A gente conhece um monte de gente talentosa que não tem boas oportunidades, ou que faz tudo certo e por algum motivo externo, sua grande chance escorrega e outras pessoas talentosas que conseguem seguir em frente. Riscado nasceu dessa vontade, dessa inquietação...
Pergunta - O filme foi rodado em apenas 12 dias. O tempo curto tinha alguma razão? Como vocês distribuíram esse tempo (tem muitas locações?)? A pré-produção deve ter sido afinadíssima.
Pizzi - Nosso orçamento era bem enxuto, por isso a gente precisava trabalhar de maneira rápida e eficaz, quanto mais dias rodando, claro, mais caro custa. Eu acredito sempre em pré-produções amplas e minuciosas, sendo muito ou pouco dinheiro para produzir. Cada detalhe precisa ser visto, discutido e entendido. Eu trabalho muito diretamente com cada equipe em separado e gosto de ter a conexão entre as equipes bem claras. Isso pra mim é fundamental em qualquer filme que eu seja o diretor. Isso traz uma segurança para o set e mesmo que existam mudanças consideráveis de ideias no set (o que eu acho muito saudável) isso traz para mim um controle interessante sobre o filme e deixa sempre à mostra sobre o que eu quero falar. Mas a gente só fez o filme porque sabia que o que a gente tinha dava para ter o filme que a gente queria, sem abrir mão de nada, nenhuma concessão. Quando o dinheiro não era suficiente para determinada coisa, a meta era encontrar uma solução artisticamente melhor que a anterior e que coubesse no orçamento que a gente tinha. Em Riscado deu certo, mas nem sempre isso acontece.
Pergunta - O filme aparenta uma certa simplicidade, uma câmera que procura a sinceridade. Tem algo assim?
Pizzi - Em Riscado existe essa busca pelo essencial, pelo o que é importante ser mostrado. Eu acho que o que tem que ser visto é sempre o essencial, o necessário. Tentei evitar as "firulas" que geralmente evidenciam uma "boa direção". Tentei ao máximo evitar a vaidade, o excesso da afirmação enquanto diretor ou esteta. Tentei colocar no filme o que era realmente necessário a ele e em cada setor do filme as coisas entram na medida necessária e sobressaltam quando é importante, quando o efeito proporcionado pelo "truque" é necessário e precisa estar lá.
Pergunta - Algo que é muito difícil no cinema são os diálogos. A impressão que passa é de estarem bem resolvidos, serem naturais. Isso foi trabalho da Karine, que trouxe esse universo que ela mesma vive?
Pizzi - Isso é algo que considero muito importante, um bom elenco com diálogos que caibam na boca dos atores. Para se chegar nesse lugar é preciso muito trabalho, mesmo com excelentes atores. Acredito muito na potência do trabalho de excelentes atores, mesmo quando não estão falando. Todos que estão em cena precisam estar naquele lugar, saber do que se trata - desde o ator principal até o mais distante figurante contratado.
Ao contrário do que pode parecer, é muito difícil falar de uma história muito próxima de você, algo que você vivencia diariamente. Muitos detalhes importantes podem passam despercebidos quando você já conhece muito e tudo já lhe é familiar. O olhar fresco de alguém que não conhece algo e está vendo pela primeira vez traz muitas vezes detalhes que já passam despercebidos pelos que conhecem e vivenciam uma determinada coisa. Acho que isso torna ainda mais incrível e impressionante a atuação da Karine, porque ela consegue elevar a uma potência absurda tudo que está em jogo no filme. Fazer alguma coisa acontecer de "verdade" no momento em que a câmera está ligada é algo que eu busco sempre no meu trabalho e em Riscado a Karine consegue fazer isso acontecer dentro do olho dela. Isso é muito sofisticado, mas ao mesmo tempo emocionante. Todos que assistem ao filme em qualquer lugar do mundo entendem e sentem com ela a emoção e a dor das coisas que a personagem vive e acredita.
Pergunta - A trilha sonora tem uma suavidade. Como ela pontua o filme?
Pizzi - A trilha é um lindo trabalho do Lucas Vasconcellos, da Letícia Novaes (que formam a banda Letuce) mais o Iky Castilho, um músico e produtor musical que veio do universo do Hip Hop. Na música - como no resto do filme - a gente buscou sempre criar novas camadas e possibilidades de leitura dentro do que a gente queria dizer. Nunca reforçar o que já se via na imagem, nunca ser redundante. Ser suave, divertido, potente, triste, alegre... sempre que julgássemos necessário. Buscamos uma trilha potente com o mínimo de elementos possíveis...
Pergunta - Você tem diversos trabalhos em produção e montagem? Você vem dessas áreas? Tinha a pretensão da direção?
Pizzi - A minha primeira opção e vontade sempre foi dirigir e escrever. Sempre estudei e trabalhei pra fazer isso acontecer. Mas no início ninguém te contrata para dirigir. Você precisa trabalhar em outros setores e funções para se sustentar, para pagar as contas no final do mês. E isso para mim foi um grande aprendizado. Comecei como assistente de diretores e produtores. Entendi como produzir, o que me criou possibilidades pra realizar os meus próprios projetos. Depois fui fazer meu primeiro filme, o documentário Pretérito Perfeito. Não tinha dinheiro para contratar um editor por um período maior, com isso aprendi a operar o equipamento de edição, e isso me rendeu caminhos incríveis! A montagem é diretamente relacionada com a direção, com o roteiro. O mais difícil em montar é entender a linguagem e isso eu já estudava desde sempre (e continuo estudando...) E as pessoas passaram a me contratar para montar filmes, programas de TV e outras coisas que não as minhas! Isso é muito bom! Hoje, portanto, posso dizer que sou diretor, roteirista, montador e produtor... Quero continuar exercendo essas funções em meus filmes e também em filmes de outras pessoas que considere talentosas e com trabalhos consistentes.
Pergunta - Você trabalha com a câmera 35mm e 16mm neste filme, o que você quis sugerir?
Pizzi - A gente trabalha com Super 16mm, 16mm e vídeo de alta e baixa resolução. Acredito a utilização desses formatos diferentes cabe dentro da narrativa do filme e cada um deles cria uma sensação diferente no espectador mesmo que esse espectador não entenda nada sobre formatos. O som busca também essa simplicidade que permeia todo o filme. Mas é sempre interessante descobrir que muitas vezes, quanto mais simples, mais complexo isso pode se tornar.
Pergunta - Como Riscado está sendo recebido? Bom, já tem o prêmio do Rio. Quais festivais o longa já passou?
Pizzi - Tivemos uma recepção incrível no Festival do Rio onde a Karine conquistou o prêmio de melhor atriz. Depois disso, os principais festivais que passamos foram Tiradentes, na mostra Aurora; Cartagena (seleção oficial competitiva), SXSW (um dos festivais mais incríveis e importantes dos EUA, em Austin, Texas,) Guadalajara (foi o primeiro filme digital exibido na mostra competitiva do Festival - uma excessão aberta pela primeira vez para poder incluir Riscado na competição). Fomos o filme de abertura do Festival Melhores do Ano do Cinesesc; Latin Wave, no Fine Arts Museum de Houston, EUA - uma seleção incrível de somente oito filmes latinoamericanos. Também fomos o filme de abertura do Hollywood Brazilian Film Festival; dentre as principais exibições já confirmadas e que podemos divulgar temos a abertura da Premiere Brazil MoMa, em Nova York e estamos selecionados no World Cinema Amsterdam, na mostra competitiva com oito filmes apenas e em agosto entramos em cartaz no circuito exibidor brasileiro.


