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O filme do diretor Jorge Oliveira ganhou dez prêmios pelo Brasil/ foto: Michele Diniz

Entrevistas

27.06.2011

Documentário dá nome aos torturadores da ditadura militar

O diretor Jorge Oliveira não descansou enquanto não conseguiu um depoimento de alguém que participou ativamente das engrenagens da ditadura militar brasileira (1964-85). Depois de três anos de produção e com o documentário já montado, o cineasta finalmente conseguiu convencer o ex-sargento do Exército Marival Chaves a dar uma entrevista . Em depoimento no filme, o militar, que trabalhou no principal órgão de repressão do regime, o DOI-CODI, aponta nomes de militares que teriam praticado o crime de tortura durante a ditadura.

Esse é o principal trunfo do documentário Perdão Mister Fiel, que conta a história do operário Manoel Fiel Filho, que foi assassinado nos porões da repressão.

O filme foi selecionado para abrir a Mostra de Direitos Humanos da Secretaria de Especial de Direitos Humanos.

Pergunta - Ao fazer um filme, por exemplo, sobre a II Guerra Mundial, raramente é preciso contextualizar explicando o que foi o Holocausto porque as pessoas já sabem do que se trata. Ao se falar de ditadura militar, principalmente para um público jovem, há muito desconhecimento. Como o senhor fez para deixar o assunto mais visual?
Oliveira -
É mesmo um problema que teve que ser resolvido. Por isso nós optamos pela dramatização de algumas sequências. Mas ao mesmo tempo tivemos que ser um pouco didáticos. O documentário não é feito para o diretor, mas para as pessoas que vão assistir. Então elas têm que entender. Ao mesmo tempo em que você não pode ser totalmente esclarecedor sob o risco de fazer o espectador perder o interesse. Não é lição escolar, é filme.

Pergunta - Nos anos 90, Marival Chaves deu uma entrevista para a revista Veja relatando os crimes cometidos durante a ditadura militar. De lá para cá ele sumiu do noticiário e reaparece agora em seu documentário com uma entrevista onde se discute as práticas e os nomes de quem cometeu tortura no país. Como se deu esse processo de convencimento do entrevistado?
Jorge Oliveira -
Eu comecei a bancar o projeto com orçamento reduzido e na mesma época comecei a fazer contato telefônico com ele. Só que sem conversar esses assuntos, eu só argumentava para ele mesmo a importância que o depoimento teria. Ele estava resistente e então eu montei o filme sem essa entrevista. No último dia eu liguei de novo e, por algum motivo, ele aceitou. Viajei às pressas com a equipe para o Espírito Santo, onde ele mora, e gravamos uma das melhores entrevistas para o filme.

Pergunta - No filme, o ex-sargento dá nomes aos torturadores. Entre eles estão Audir dos Santos Maciel e Carlos Alberto Brilhante Ustra. O senhor também procurou esses militares para saber a versão deles?
Oliveira -
Sim, procurei todos eles, mas ninguém quis falar. O Ustra, em uma conversa por telefone, chegou a me garantir que o Manoel Fiel Filho se matou. Ele disse assim: "Tenho certeza que ele se matou. Eu fiz o teste com um sargento nosso e vimos que era possível se auto-estrangular". Mas é complicado, existe muito corporativismo. Esses militares da reserva têm uma rede na qual um vai passando informações ao outro. Aí eles vão vendo quem é confiável ou não.

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