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29.06.2011
Singularidades de dois cineastas
Dois diretores de diferentes países e gerações, com aproximações e dessemelhanças na forma como veem o cinema latino-americano. O paulista Carlos Reichenbach e o chileno Matías Bize participaram do painel "A estética singular do solstício", no Fórum Audiovisual Mercosul, mediado pelo jornalista, tradutor e crítico de cinema José Geraldo Couto, e que contou com a participação da professora de cinema da Unisul, Alessandra Brandão.
Com quatro longas no currículo, os três primeiros de baixo orçamento, Bize, diretor de La vida de los peces, que custou 600 mil dólares e arrebatou calorosos aplausos na fria noite de domingo do FAM 2011, disse que seus filmes são muito pessoais, porque quis falar de seus gostos, do seu mundo, e que, por causa disso, não são o que se espera de um filme latino-americano.
"Um produtor francês gostou de La Cama, mas não quis comprá-lo porque não era suficientemente 'latino-americano'. Já outro crítico disse que La Cama contava a história recente do Chile apenas com os dois personagens na cama", disse Bize, para quem um filme, por mais intimista que seja, sempre apresenta uma visão de mundo e, portanto, uma visão política. "O mais interessante é fazer com que o público aceite e complete a história", afirmou.
Cineasta homenageado no FAM 2011, Carlão Reichenbach abriu sua fala prestando uma reverência a Gustavo Dahl, um grande pensador do cinema latino-americano, discípulo de Paulo Emílio Salles Gomes, que teve, para Reichenbach, uma das melhores mortes possíveis: "O Gustavo morreu numa sala de projeção, ele deveria estar aqui hoje. Saudades e um beijo na alma".
Para o diretor de Filme Demência, Alma Corsária e Garotas do ABC, que foram exibidos na Lagoa da Conceição, na semana anterior ao FAM, disse que hoje no Brasil vigora um cinema tipo exportação, com diretores fetiche de uma grande rede de televisão, no qual figuras históricas do cinema brasileiro, como Nelson Pereira dos Santos e Eduardo Coutinho, têm dificuldades para exibir seus filmes.
Duro crítico da lei de incentivo, "que tirou do Estado o papel de mecenas e o transferiu para uma iniciativa privada que está pouco se lixando para a cultura", Carlão, que se diz utopista de carteirinha, disse que sempre quis fazer um filme sobre velhos anarquistas intitulado A propriedade não é privada: "Mas nunca me deram dinheiro para isso", afirmou Reichenbach, que disse não encontrar nas leis um verdadeiro incentivo à produção. "É uma vergonha termos no país uma política para o cinema onde Nelson Pereira dos Santos tem que pedir dinheiro para poder fazer um filme", declarou Carlão.


